A dor visceral de origem cancerosa pode resultar de factores mecânicos e neurohumorais. As causas da dor são variadas, desde torsão ou tração do mesentério, distensão ou contração das vísceras ocas, irritação ou inflamação das mucosa e serosa, espasmo do músculo liso, estiramento da cápsula dos órgãos sólidos, isquemia e causas neurogénicas.
Inicialmente usado como técnica anestésica para cirurgia abdominal, descrito pela primeira vez por Kappis, em 1914. Bloqueava os nervos esplâncnicos e plexo celíaco, usando duas agulhas por uma via retro-crural até ao retroperitoneu. Em 1918, Wendling, descreve uma nova abordagem, trans-hepática, que entrou em desuso por se julgar com maior riscos. Apesar de várias modificações feitas por Labat, Braun e Roussiel, esta técnica foi rapidamente substituída pelo bloqueio subaracnoideu para anestesia cirúrgica.
Entretanto, foi reabilitada por uma nova “especialidade” para o tratamento da Dor. Em 1948, Popper recomenda o uso de anestésicos locais para o bloqueio diagnóstico. O bloqueio neurolítico foi descrito pela primeira vez por Jones, em 1957. E em 1964, foi reportado o seu papel no tratamento de dor por neoplasia abdominal superior.
Apesar das inúmeras variações, a abordagem posterior, descrita por Kappis continua a servir de base para as técnicas contemporâneas.
O Plexo Celíaco está situado no espaço retro-peritoneal, no abdómen superior ao nível das vértebras T12-L1, anterior aos pilares diafragmáticos, anterior e lateral à aorta abdominal e artérias celíaca e mesentérica superior (figura 1 e 2). A veia cava inferior posiciona-se anterior e à direita do plexo (figura 3).
Figura 1.
Figura 2.
Figura 3. TAC abdominal superior com contraste, ao nível da vértebra L1. 1- Aorta; 2- Veia Cava Inferior; 3- Fígado; 4- Baço; 5- Rim esquerdo; 6- Pilares do difragma; 7- L1; 8- Estômago; 9- Tronco celíaco (10- hépática comum, 11- gástrica esquerda e 12- esplénica)
Contém gânglios que recebem as fibras simpáticas nos nervos esplâncnicos maior (T9-T10), menor (T10-T11) e mínimo (T12). Recebe também fibras parassimpáticas do nervo vago, algumas fibras sensitivas do vago e frénico e fibras pós-ganglionares simpáticas.
Estas fibras coalescem para formar uma rede autonómica onde se distinguem três gânglios: 1) gânglio celíaco, 2) gânglio mesentérico superior e 3) gânglio aórtico-renal (figura 2). Destes, saem fibras pós-ganglionares para inervar todos os órgãos intra-abdominais, excepto parte do cólon transverso, cólon descendente, recto e vísceras pélvicas. Dá, portanto, origem a fibras eferentes simpáticas que inervam o fígado, pâncreas, vesícula biliar, estômago, baço, rins, partes do intestino, glândulas supra-renais, vasos sanguíneos. Estas fibras são responsáveis pela transmissão da dor visceral destes órgãos e o principal alvo do bloqueio do plexo celíaco.
Usar o fluoroscopia para identificar as apófises espinhosas T12 e L1, as duas 12ª costelas e desenhar um triângulo isósceles:
Localizar (com Rx) e desenhar (na pele) as apófises espinhosas de T12 e L1 (identifica-se T12 primeiro, pelas articulações com as 12ªs costelas) - vértice do triângulo.
Localizar (com Rx) e desenhar (na pele) as 12ªs costelas bilateralmente (figura 4.) - lados do triângulo.
Figura 4.
Traçar linha transversal a passar pela apófise espinhosa de L1 (figura 5) - base do triângulo.
Figura 5.
Marcar ponto localizado 6/7 cm a partir da linha média para cada lado (vai ser o ponto de inserção das agulhas) (figura 6).
Figura 6. Desenho do triângulo isósceles: 1 - 12º costelas; 2 - linha transversal passa pela apófise espinhosa L1; 3 - apófise espinhosa de L1; 4 - ponto de inserção das agulhas.
Projecção antero-posterior
Colocar o braço do fluoroscopio em posição antero-posterior (figura 7).
Figura 7.
12º costelas que articulam com a vértebra T12.
Identificar apófises espinhosas de T12 e L1 (figura 8).
Figura 8.
Orientar o fluoroscópio cefalocaudalmente de forma a eliminar o duplo contorno do corpo vertebral de L1.
Projecção oblíqua
Colocar o braço do fluoroscopio em posição oblíqua (20-30º) (figura 9) de forma a que a ponta da apófise transversa de L1 esteja junto à margem anterior do corpo vertebral de L1 - Identificar a face anterior do corpo vertebral de L1 (figura 10).
Figura 9.
Figura 10.
Dor abdominal crónica
Neoplasia do pâncreas, gástrica, esofágica, hepática, vesicular e colangiocarcinoma
Metástases hepáticas
Pancreatite crónica
Pediatria (neuroblastomas, hepatoblastoma)
Alterações da coagulação
Infecção no local da punção e sépsis
Aneurisma da aorta abdominal
Hemograma com plaquetas e estudo da coagulação - tem que apresentar valores compatíveis com técnicas invasivas
Rx do tórax
TAC ou RMN do andar superior do abdómen - para identificar deformidades na região celíaca, aneurisma da aorta
Cuidados a ter em doentes a fazer profilaxia do tromboembolismo com HBPM - os mesmos que para um bloqueio do neuroeixo
Consentimento informado assinado
Esta técnica deve ser realizada em ambiente de bloco operatório com apoio de fluoroscopia.
Deve haver material/fármacos de ressuscitação rapidamente disponível.
O doente deve estar com monitorização standard, sedado e analgesiado (sedação consciente) com benzodiazepina e opióide intravenosos (p.e., midazolam e fentanil). Por norma, não necessita de fazer antibiótico profilático.
Tabuleiro com (figura 11):
Figura 11.
Decúbito ventral com uma almofada sob as espinhas ilíacas antero-superiores (para diminuir a lordose toraco-lombar), braços em abdução 180º e cotovelos flectidos a 90º (figura 12).
Figura 12.
A aproximação ao plexo com a agulha necessita: local de entrada adequado, ângulo de inserção, avanço no plano adequado e profundidade adequada.
A posição final da agulha é anterior à junção T12/L1, superfície antero-lateral da aorta.
O braço deve ser colocado obliquamente 20-30º para o lado ipsislateral (figura 13). O objectivo é obter acesso “em túnel” à margem antero-lateral de L1.
Pontos-alvo:
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Técnica |
Fármaco |
Dose |
Observações |
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Diagnóstica |
levobupivacaina 0,25% |
15-20 ml de cada lado |
Injecção lenta, progressiva e com aspirações suaves e frequentes (cada 5 ml) |
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Terapêutica (neurolítica) |
álcool 90-70% |
20 ml de cada lado |
anestésico local (mesma dose descrita acima) injectado antes do álcool (produz dor intensa tipo queimadura) |
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corticóide (opcional) |
metilprednisolona |
40-80 mg |
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triamcinolona |
40 mg |
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Os pontos a 6-7 cm da linha média são usados como referência para a entrada das agulhas. Os pontos ideais de entrada devem permitir a progressão em túnel da agulha num ponto que fique caudal à margem inferior da 12ª costela e cefálico à apófise transversa de L1, para atingir a superfície antero-lateral do corpo de L1.
Anestesiar os pontos escolhidos com lidocaína.
Começar com o lado esquerdo.
Usar a agulha de raquianestesia para anestesiar os planos profundos até à superfície antero-lateral de L1 (obter contacto com o corpo da vértebra).
Usar fluoroscopia a cada avanço de 1-2 cm para manter a agulha em túnel.
Após atingir a superfície antero-lateral de L1, colocar o fluoroscópio em posição lateral.
Redirigir a agulha ligeiramente lateralmente para permitir avançar a agulha até ficar 2-3 cm anterior a L1. Deve-se aspirar frequentemente a agulha para avaliar a saída de sangue, líquor, líquido pleural ou urina. Se for aspirado sangue do lado esquerdo, foi perfurada a aorta. Deve-se continuar a avançar e fazer uma técnica trans-aórtica.
Colocar o fluoroscópio antero-posterior. A agulha deve estar medial à margem lateral de L1.
Confirmar a localização correcta injectando 1-2 ml de contraste em fluoroscopia contínua. O contraste deve estar na face anterior da aorta e ser pulsátil. Se se espalha para ambos os lados da linha média, pode-se usar apenas uma agulha para a técnica.
Se ficar apenas do lado esquerdo, tem que se fazer o mesmo procedimento do lado direito.
Há autores que misturam produto de contraste com a solução a ser injectada para monitorizar a sua dispersão durante todo o procedimento.
Após a injecção do álcool, cada agulha deve ser enxaguada com soro fisiológico esterilizado.
Quando colocar catéteres:
Para fazer bloqueio diagnóstico num tempo e bloqueio neurolítico noutro tempo
Para dor não oncológica, que beneficia em fazer terapêutica contínua com AL
A técnica é semelhante à descrita sem colocação de catéteres. As diferenças:
Após anestesia o trajecto até ao corpo de L1, retirar a agulha de raquianestesia.
Colocar a agulha Tuhoy pelo mesmo trajecto até a ponta estar na posição descrita anteriormente. Injectar 1-2ml de contraste para confirmar o local.
Após confirmação de posicionamento correcto, inserir 3cm de cateter e reconfirmar com injecção de 2ml de contraste com fluoroscopia contínua. Retirar a agulha e fixar o cateter. Se o contraste estiver na linha média e apresentar uma dispersão bilateral, não é necessário colocar o segundo cateter. Caso contrário, repetir a técnica para o lado contra-lateral.
Fixar os cateteres com sutura ou com Steri-Strips.
O bloqueio diagnóstico pode ser executado através dos cateteres e depois, num segundo tempo, serem utilizados para a injecção da solução neurolítica. Antes, deve ser confirmada a sua posição com a injecção de contraste.
Os catéteres podem ser mantidos 4-7 dias e devem ser vistos diariamente.
A analgesia pode ser mantida/prolongada com perfusão contínua de levobupivacaína 0.1% a 6-8 ml/h.
O bloqueio neurolítico constitui, ainda hoje, um procedimento controverso quanto à sua eficácia (comparada com opióides, com outras técnicas e abordagens e, considerando o risco remoto de paraplegia), especialmente se o tratamento com analgésicos for eficaz.
Numa revisão recente sobre o bloqueio do plexo celíaco em doentes com cancro pancreático pareceu evidente que, apesar do seu efeito antálgico ser ligeiramente superior ao uso de analgésicos, a sua baixa incidência de efeitos laterais, comparados com os dos opióides, parece ser importante para os doentes.
Numa outra revisão, a neurólise do plexo celíaco é considerada uma terapêutica válida quando a terapêutica não invasiva não é eficaz, com grau de evidência 1B, e a neurólise deve ser executada precocemente pois a analgesia profunda que produz reduz as necessidades em AINE’s e opióides.
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