O nervo femoral (NF) é o maior ramo do plexo lombar, formado pelas divisões posteriores dos ramos anteriores das raízes L2-L3-L4. Surge no bordo lateral do psoas, e no seu percurso até à coxa, é profundo à fascia ilíaca (FI). Entra na coxa posterior ao ligamento inguinal (LI), postero-lateral à artéria femoral (AF) e sobre o iliopsoas (IP) (fig. 1 e 2). A este nível, divide-se em anterior e posterior.
| Enervação | Divisão Anterior | cutânea – face anterio-medial da coxa muscular – pectíneo e sartorio |
| Divisão Posterior |
cutânea (nervo safeno) – face interna perna, tornozelo, pé muscular – quadricipete articular – anca e joelho |
N – nervo femoral
A – artéria femoral
V – veia femoral
1. Músculo psoas ilíaco (porção ilíaca)
2. Ligamento inguinal
3. Músculo pectineo
4. Músculo sartório ou costureiro
5. Músculo tensor da fascia lata
6. Músculo quadricipete femoral (porção recto femoral)
7. Músculo aductor longo
8. Músculo gracilis
Figura 1. Anatomia do NF na região inguinal.
A posição do NF na PI é fácil de fixar usando a mnemónica “NAV” (Nervo – Artéria – Veia), indo lateral para medial (fig 1.).
Figura 2. Anatomia nervo femoral no cadáver fresco.
Figura 3. Enervação sensorial, muscular e óssea do NF em côr azul.
Decúbito dorsal.
Membro inferior em posição neutra ou em ligeira abdução e rotação externa.
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Dose única |
Cirurgia da face anterior da coxa (p.e. colheita de enxerto de pele) e cirurgia superficial da face medial da perna. Analgesia (prévio à mobilização em doentes com fractura do colo ou da diáfise do femur). Maioria das cirurgias do membro inferior (coxa e perna), quando combinado com bloqueio proximal do nervo ciático. |
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Bloqueio contínuo |
Analgesia após cirurgia major da diáfise ou colo do fémur e joelho (p.e., artroplastia da anca ou joelho, ligamentoplastia do ligamento cruzado anterior). |
Sem contra-indicações especiais.
Relativas:
cirurgia ilioinguinal prévia (colheita de enxerto vascular femoral, bypass femoro-poplíteo, transplante renal),
nódulos linfáticos de grande tamanho,
tumores,
infecção local,
infecção peritoneal e
antecedentes de neuropatia femoral.
Figura 4. Referências anatómicas para bloqueio do NF. O local de inserção da agulha localiza-se na PI, 1 a 2 cm lateral ao pulso da AF.
Dose única
A agulha de neuroestimulação é introduzida no local mencionado, com direcção cefálica e ângulo de 30o, após anestesia local da pele.
Durante o seu avanço pode sentir-se um duplo-click, indicando a passagem das fascias FL e FI. A resposta motora adequada é a “dança da rótula” (contracção do quadricipete) com amperagens entre 0,2 a 0,5mA / 0,1ms, geralmente a 3-4cm de profundidade.
A contracção do sartório (contracção muscular da face anterior da coxa, sem movimento da rótula) é muito frequente e pode confundir-se com a do quadricípete e falência do bloqueio. Perante aquela resposta, deve retirar-se a agulha até à pele e e redireccioná-la lateralmente e 1-3mm profundamente.
Técnica contínua
A técnica é semelhante à dose única. O cateter é inserido, sem resistência, 3-5cm para além da ponta da agulha e pode ser tunelizado ou fixo com adesivo.
Técnica ecoguiada
A sonda apropriada (linear, 10-12MHz) é colocada paralela à PI (fig. 5).
LI – Ligamento inguinal
EIAS – Espinha ilíaca antero-superior
PI – Prega inguinal
Figura 5. Posição da sonda ecográfica na prega inguinal.
Após optimização da imagem (ajuste de profundidade, foco e ganho), o NF é identificado como uma estrutura hiperecogénica, lateral à AF, sob FL e FI e sobre o músculo IP, com a forma triangular ou ovalada (fig. 6).
Figura 6. Aspecto ecográfico do NF.
A agulha pode ser introduzida paralela (in-plane) ou perpendicular (out-of-plane) à sonda.
Na técnica contínua, o cateter é inserido com mais facilidade se a agulha estiver paralela ao nervo (fig. 7).
Figura 7. Aspecto ecográfico pós-administração de anestésico local (AL) em técnica contínua.
A escolha do anestésico local deve basear-se quanto ao tipo de bloqueio pretendido, para anestesia cirúrgica ou para tratamento da dor.
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Dose única |
Bólus 20-40ml |
Anestesia |
Analgesia |
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lidocaina 1,5 - 2% mepivacaína 1 – 1,5% ropivacaina 0,5% levobupivacaina 0,5% |
ropivacaina 0,2% levobupivacaina 0,25% |
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Técnica contínua |
Bólus Inicial |
20 ml |
ropivacaina 0,2% |
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Manutenção |
Perfusão contínua: 5 – 8 ml/h Bólus intermitentes: 20ml 6/6h PCRA: 5ml/h + bolus (5 ml/30 min) |
PCRA – Patient Controlled Regional Analgesia
São raras.
Incluem-se punção vascular, lesão neural, infecção (nomeadamente, na técnica contínua).
Avisar o doente que terá incapacidade motora do membro bloqueado (evitar quedas acidentais).
Referências
Hadzic A. Textbook of regional anesthesia and acute pain management. MacGraw-Hill, 2007
Chan V. Ultrasound imaging for regional anesthesia. A practical guide. 2nd Edition. Vincent WS Chan, 200